domingo, 27 de fevereiro de 2011

Afro Retratos - Parte 2

Eu pensei quando pequena que ser artista era só sentar, pegar os materiais e baixar a inspiração. Sei lá, um Van Gogh, um Monet rs! Mas é muita transpiração mesmo!

Primeiro pra se chegar na forma que se deseja, conseguir pensar melhor nas relações entre as cores, nos ornatos que eu adoro, na composição. Como fazer para não pesar? No meu caso as imagens e os grafismos e outros materiais pesam e são parte importante da composição. Quando estudei no Colégio Técnico Carlos de Campos que, como dizia um amigo, é um lugar "de onde saem cabeças bonitas", tive uma professora  que tudo pra ela pesava. Eram os opostos: alguém criada sob uma cultura do "menos é mais", minimalista, equilibrada orientando uma pessoa hiperbólica, barroca e adolescente. Eu ficava extremamenete decepcionada e tentava fazer o que "ela" achava equilibrado. Eu não gostava daquelas folhas tão limpas. Na verdade, até gosto, desenhos só com linhas também é uma das minhas frentes de trabalho, é que me esquecia que estava em um colégio TÉCNICO. Assim, tinham as aulas para estimular a criação, que eram mais livres como a de desenho de figura humana, e as outras para se aprender os conceitos de maneira mais técnica mesmo como desenho geométrico (argh!). Um amigo leu este texto e conversamos um pouco via Facebook sobre esta questão porque ele também estudou neste colégio e para ele esta professora foi decisiva. Porém teve aula com ela dez anos depois de mim, e o que a gente não aprende em 10 anos, não é mesmo? Muita coisa! Assim, considerei que seria melhor explicitar mais, mesmo que rapidamente, o que eu quis dizer. No Instituto de Artes da UNESP, por exemplo, também me deparei com professores com esta mentalidade mais tecnicista. Também acredito, cada vez mais, que o que é eficiente para 100 em termos de educação, especialmente pensando no estudo das artes, pode não ser para 10 e, se não é, deve ser considerado que há algo a se fazer ou a se pensar de outra maneira. A uniformização do ensino em todas as suas esferas é problemática porque não somos iguais. Deveriam ter pelo menos uns três modelos por aí, em prática.

Bom, este meu modo exagerado de ser (em alguns momentos), está em algumas pinturas recentes, como na segunda parte dos "Afro Retratos". Para pintar estes, tive como referência mulheres de Angola, das etnias muíla, mukubal e muimba. São os adornos que me interessam porque desejo caracterizar os retratos com vestimentas e simbologias de muitas culturas. A quantidade de colares, brincos, pinturas corporais é fantástica!

Agora vou passar para a criação de mulheres da Ásia (China ou Japão, Índia e Tailândia). Via "Afro Retratos" pretendo dar a volta ao mundo. Estes trabalhos passarão por photoshop só para melhorar e acentuar as imagens em relação às cores, brilho etc., mas já estão finalizados.

Em breve tem mais!












terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Guerrilla girls: sim, ainda estamos em guerra!

Eu realmente fico decepcionada quando ouço algumas pessoas dizendo que as manifestações contra o racismo, o preconceito e o machismo, dentre tantas outras, são datadas. Muitas vezes ouço isso de pessoas brancas ou claras, endinheiradas, que estudaram nos melhores colégios e univerdades da cidade ou do país e que, portanto, estão dentro de um padrão imposto garganta abaixo pelo mass media.

Também escuto este tipo de afirmação de outras pessoas desinformadas: negros e mestiços (que não sabem que são negros e mestiços) e que dizem nunca terem sofrido com o racismo escancarado que existe em nosso país (não perceberam, é bem a verdade, pobres...); conservadores que ainda acreditam que homossexualismo é uma espécie de doença ("em breve haverá uma vacina contra esta indecência); e, homens e mulheres, principalmente mulheres, que se prestam ao papel de desqualificar o gênero feminino com frases várias e mesmo, o que é pior, com atitudes, veja esta sexualização exacerbada do corpo da mulher e das relações sexuais que, poderiam ser mais sensuais e que vemos estrapoladas via alguns estilos musicais da "moda", não é mesmo? Sem falar em deficientes físicos. Um dia destes um moço apanhou de um delegado que desejava estacionar na vaga reservada aos cadeirantes: "Jesus Man"!

Ainda bem que na arte ainda há pessoas e grupos capazes de atentar para o diálogo entre Arte e Sociedade. Aracy Amaral fez a curadoria de uma exposição sob este título no Itaú Cultural anos atrás, ótima mostra. Ainda escreveu o livro Arte pra quê? Que pode ser lido prazerosamente. Afinal, pode haver arte para deleite visual e estético; para se disfarçar de álgebra (aquelas muito, muito difíceis de se compreender, mesmo para os "iniciados", pena...); e estas que são elaboradas a partir do que se observa no mundo e nas relações humanas, tão desgastadas, tão esquecidas... Há espaço para muita arte, e ainda bem que existem moças como as do grupo Guerrilla Girls.

O coletivo criado em Nova York em 1985, vem fazendo há tempos seu barulho no cenário das artes com sua atitude heterodoxa, panfletária e aos moldes do espetáculo. Estiveram no Brasil em 2010, nas cidades do Rio e de São Paulo, onde ministraram oficinas. Elas usam nomes de artistas falecidas e famosas como identificação e usam máscaras em suas aparições. Ninguém sabe quem são as suas integrantes (identidade secreta). Em entrevista para Camila Molina do Estadão, elas disseram que: 

"Somos um grupo de artistas mulheres que usa fatos, humor e visual chocante para expor sexismo, racismo e corrupção - no mundo da arte, na política e na cultura pop. Nós revelamos as entrelinhas, o subtexto, o que se faz vista grossa, o injusto" (...) "Tentamos retorcer um assunto e apresentá-lo de uma maneira que não foi feita antes, com a esperança de mudar a cabeça de algumas pessoas".

Por meio de estatísticas elas provam que se o assunto (feminismo), se fosse datado não haveria necessidade de denunciar que no Metropolitan Museum, de Nova York, por exemplo, menos de 5% dos artistas representados são mulheres na seção de arte moderna, mas 85% dos nus do acervo são femininos.

Dá pra denunciar muito mais: http://www.guerrillagirls.com

Ruud Van Empel: algo realmente interessante feito com manipulação de imagens

Eu já havia visto algumas imagens deste artista espalhadas aí pelo mundo. Porém, no último domingo, além de ter a honra de assistir às crianças do projeto sóciocultural "Guaçatom", no SESC Osasco, também pude esperar o horário da apresentação na sala de leitura da unidade.

Primeiro fiquei muito surpresa ao ver uma revista de arte contemporânea que não blasé: Santa Art Magazine. Muitas imagens e textos curtos sobre os artistas. E eles ainda aceitam ensaios, ou seja, meio que qualquer pessoa com um bom texto de apresentação para ótimos artistas pode propagar suas opiniões ou socializar uma produção.

Lendo a revista encontrei Ruud Van Empel (1958), holandês que vive e mora em Amsterdã (dan!), formado em Belas Artes. Por meio de softwares de manipulação e criação de imagens, ele situa pessoas, especialmente crianças negras, em ambientes naturais ou criados pelo homem. A cada elemento agrega muitos detalhes revisitando, deste modo, a escola do Hiperrrealismo, seguindo aí uma tendência que pode ser observada na produção inglesa atual. Com estes trabalhos ele abre, sem dúvida, um nicho de produção e criação a partir do emprego destes softwares.

As suas crianças negras carregam o olhar de descobrimento, curiosidade e ingenuidade. No texto de apresentação, a autora se referia a uma aura de pureza antes só relacionada à criança branca, principalmente, à loura devido ao surgimento desta pinturas no século XVIII na Europa. Todos devem se lembrar destes quadros (reproduções, muito comuns na minha infância). Entretanto, até então, parece que ninguém havia observado que há doçura também no olhar e existência de crianças nigérrimas, como nos ensina o Aurélio.








quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Reflexão sobre a função do serviço educativo de algumas instituições culturais de São Paulo - parte 1

Primeiro, este pequeno texto deve ser lido como se berrado!

Desde 2000, tenho atuado como arte-educadora em instituições culturais de São Paulo. Itaú Cultural, Pinacoteca do Estado, Museu Afro Brasil, são alguns dos vários lugares onde fiz o papel de ser a "ponte" entre as obras expostas e o público.

Quando se é educadora a tarefa parece mais fácil, apesar de algumas péssimas condições de trabalho que se evidenciam na ausência da CLT e, portanto, dos demais direitos trabalhistas. Os educadores ainda não são vistos como profissionais que têm direito a estes benefícios, apesar de ser esta uma profissão visível e necessária nestas instituições desde a Mostra do Redescobrimento que contou com 300 educadores. Necessária porque o que se propõe é uma iniciação de público fruidor-visitante-frequentador destes espaços, ou seja, queremos que as pessoas criem gosto pela coisa.

Porém, o que me pergunto é: para que servem, de fato, os educativos? Alguns educativos efetivam a sua existência com ações que visam trazer o público aos seus espaços e eventos e informá-lo, formá-lo, socializá-lo com as diversas linguagens artísticas e culturais expostas. E conseguem com certa eficácia, muito em parte, pela localização e pela disponibilidade da equipe, incluindo aí não somente os educativos.

Em espaços como Itaú Cultural vemos uma programação gratuita e interessante, porém bastante voltada para o viés da arte e tecnologia. Entretanto, a gama de outros eventos também é ampla, vide uma recente exposição de fotografia contemporânea.

No MAM a preocupação com o atendimento de diversos públicos, com cursos livres (ainda que pagos) e com visitas mediadas é constante e o seu serviço de atendimento e educação inclusiva é um dos mais interessantes que vemos por aí juntamente com o da Pinacoteca do Estado. Fontes ocultas me disseram que há liberdade concedida pelas Diretorias para que a coordenação destas instituições elaborem e coloquem em prática os seus projetos com explícitos resultados positivos.

No caso do Museu Afro Brasil foi desenvolvido, principalmente nos últimos dois anos, um intenso trabalho de equipe. Parcerias com instituições como a APAE, Fundação Casa e Avisa Lá, todas comprometidas com a educação e com a sociedade em vários níveis, as mesmas efetivadas e tiveram grande êxito. Não obtivemos um tostão com as parcerias, somente realização de ambos os lados.

Entretanto, e quando as vaidades interferem em um processo que é voltado e que existe somente devido a existência de um público a ser contemplado e atendido? Bem, após seis anos no Museu Afro Brasil, em acordo com o desejo de parte da Diretoria, fui desligada da instituição porque acredito em um serviço educativo preocupado com o público e não com os "louros" (da vitória). Neste caso em particular, não existem iniciativas de parceria com instituições do extremo da Zona Sul ou da Zona Leste onde estão concentrados os cidadãos que precisam se empoderar e se fortalecer a partir das informações e do conhecimento contido neste espaço. Muitas instituições que desejavam parceria com o Museu Afro Brasil nem tiveram as suas propostas analisadas, afinal, a pergunta que ouvi foi:"o que o museu ganha com isso?". O que um museu público deve ganhar com isso se já recebe verba pública (nossa!) para pagamento de seus funcionários e sua manutenção básica?

Um museu, evidentemente, não deve ser assistencialista, não é o seu papel, porém, um museu que concentra objetos com o tema que aborda o Museu Afro Brasil, deve ter a decência de voltar parte significativa de suas ações à populações marginalizadas, especialmente a negra e mestiça. Quando não realiza este papel educativo inclusivo, o Museu Afro Brasil, veste a personagem que critica: do elitista, opressor (branco), negador de oportunidades.

Não, eu não sou militante ferrenha, todavia, falta esta sensibilidade e generosidade a parte da Direção deste belo e importante Museu. A quem ele quer servir? Que tipo de público se quer ver visitando este espaço e tecendo comentário sobre as obras? Os jovens dos colégios para endinheirados (podem ir também, é claro, mas não somente)? E os jovens que precisam, para reconstruir uma imagem/iconografia negra e mestiça positiva, conhecer Luis Gama, Carolina Maria de Jesus, dentre outros, ou mesmo ver um jovem educador negro detendo um conhecimento que até então só se via nos lábios dos brancos? ou mesmo um educador branco que sabe tanto sobre a população afrodescendente e a trata com respeito?

Eu quero Itaquera, Lajeado, Grajau, São Miguel Paulista, Parelheiros, Campo Limpo, Capão Redondo, São Matheus, dentre outros, neste espaço que explora e reconta a história dos antepassados da maior parte dos habitantes destas regiões!

Esta é uma reflexão ainda rasa que precisa ser reescrita, mas são linhas gerais do meu pensamento. O que aprendi com Miriam Celeste Martins, Denise Emerich, Renata Bittencourt, Anny Lima, Larissa Glebova, Solange Ardila e outras (os) profissionais com os quais trabalhei e estudei.


o artista Rubem Valentim

o Banco Luba

a grande pintora Yêdamaria

Que educação em museus e instituições culturais nós precisamos?