quinta-feira, 7 de abril de 2011

Não à ditadura do cabelão: meu cabelo é duro, Sr. Luiz!!

Vida de menina negra não é fácil. Estou falando de meninas negras de cabelos crespos, não das que têm cabelos como os das atrizes Taís Araujo ou Camila Pitanga que são maravilhosamente anelados. Há mil variáveis relacionadas a essa questão, mas aqui falarei dos cabelos que foram tema de músicas marcantes e importantíssimas para a musiografia nacional como "Fricote", do talentosíssimo Luiz Caldas que contribuiu para o êxito do inferno de infância e pré-adolescência das meninas que nasceram entre 1976 e 1982, um dos maiores sucessos do axé music. Observe a letra:

Fricote

Composição : Luiz Caldas E Paulinho Camafeu

Nega do cabelo duro
Que não gosta de pentear
Quando passa na baixa do tubo
O negão começa a gritar
Pega ela aí
pega ela aí
Pra que ?
Pra passar batom
De que cor?
De violeta
Na boca e na bochecha
Pra que?
Pra passar batom
De que cor?
De cor azul
Na boca e na porta do céu

Há várias outras músicas depreciativas que nos falam sobre "nega", como os compositores gostam disso... Que criativo...

Bem, este blog é dedicado à arte, estética (não do corpo, da forma) e correlatos, não é um blog de militância apesar deste tom permear alguns textos, como este. Minha mãe sempre tomou o cuidado de pentear meus cabelos e dos da minha irmã. Fazia belas tranças enraizadas, uns rabinhos bem puxados que me renderam olhos amendoados (rs). Mais tarde quis passar o ferro quente em meus cabelos para ver como ficava e durante anos, dos meus 14 aos 22 anos alternei os cabelos alisados à ferro com tranças. Na época do colégio era, para mim, inconcebível não estar de cabelos lisos, era um pavor! Eu tinha que alisar meus cabelos aos finais de semana e suportar a transpiração do couro cabeludo que fazim as raízes retonarem ao seu estado original. E foi assim até o momento em que eu quis me lembrar de como era a textura real de meus cabelos sem o efeito destrutidor da "chapinha" (esquentada no fogão). Nisso eu já tinha 23 anos e estava no mestrado pesquisando a história da minha família. Fui aos poucos esperando os cabelos crescerem e ele virou um grande pompom, black, que chocava e impresionava as pessoas por onde eu passava porque ainda não estávamos na moda do black novamente (sempre há um "blackinho" lá no fundo em todas as propagandas, é "fashion"!). Engraçado como algumas pessoas se ofendem com características dos outros. Hoje, alteranando tranças, black e rendida a um pouquinho de megahair (cuidado com os piolhos dos cabelos alheios!!), percebo o quanto é triste as pessoas não se darem o direito de exibirem os cabelos, corpos e etc. que lhes são próprios, que são heranças de seus pais, avós e que as diferenciam dos demais. A história da arte nos mostra um pouco destas alternâncias de gostos e padrões que interferem nas vidas das pessoas de maneira, por vezes, decisiva.
Voltando de Pernambuco este ano, o estado brasileiro que mais adquiriu africanos no século XVII, me espantou a quantidade de mulheres negras que não querem ser tão negras assim e que massacram seus cabelos cacheadíssimos, crespíssimos, carapinhas com produtos que incluem, inclusive, formol. Triste!
Vendo este site maravilhoso chamado "Le Coil", me deparei com mulheres lindas, negras e mestiças, mas todas de cabelos crespos que elegante e originalmente mantêm suas madeixas naturais e autênticas. Não precisam se padronizar para fazer com que seus cabelos se pareçam com os das propagandas da Revlon e congêneres estende-os ou disfarçando-os com longos cabelos alheios como fazem algumas divas norte-americanas e colegas brasileiras que, creio, nem devem mais ter cabelos naturais.










Fotos de mulheres que estão no site "Le Coil"


Dredados (adoro!), descoloridos, black, trançados, com faixas, com flores, raspados de um só lado, descabelados, presos, parcialmente ou todos raspado, esvoaçados, vamos exibir a cabeleira dura por aí. E Sr. Luiz Caldas: eu gosto de pentear!

Depois de visitar para alguns centros europeus imaginando que encontraria cebelos crespos fantásticos, me decepcionei e vi que nós de São Paulo somos muito, mais muito mais estilosas que muitas gringas mundo afora (Luciane Ramos, Maria Gal, Lucélia Sérgio, Dj Dani Negra, Janette Santiago, Priscila Preta, Débora Marçal, Janaina Freitas, Selma Paiva, Cintia Sampaio, Samira Carvalho, Nina Vieira, Jennifer Nacimento, e muitas outras, "is us on the tape"!).

Em breve, imagens de mulheres e homens de São Paulo!

----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------Como prometido, seguem algumas imagens, virão mais algumas outras.
Márcia, vendedora na feira descolada do Center 3

Carla, também vendedora e irmã de Márcia. Adoto os birotinhos!

Fábio, estava a passeio ao que parece. Cabelo crescendo.


Zinho Trindade, Mc e poeta.

Priscila Preta, atriz e seus cabelos vermelhos.

Débora Marçal, atriz e seus dreads recém cultivados.


Jennifer Nascimento, socióloga com cabelos levemente cacheados e descoloridos, estava um arraso!


Selma Paiva, modelista e cantora, hoje este cabelão de formas infinitas, ela chegou de birotes.

Jaime Diko, que promove a festa na Ass. Monte Azul.

Cida, ajuda na organização da festa. Detalhe do tênis abaixo!


Linda de morrer! Cabelos descoloridos. Detalhe da pernona e botas vaqueiro abaixo!


Olha o detalhe dos dreads abaixo.


O fotógrafo da noite e seus dreads.

11 comentários:

  1. Minha história de libertação é bem parecida com a sua. Não fui da época do pente quente, mas não suportava a idéia de ter que fugir da chuva(leia-se também reseno, garoa e afins) e não poder transpirar, pois a raiz gritava que ra uma beleza. Hoje me arrependo de não ter libertado meus cabelos antes. Já são 3 anos de libertação.
    Amém irmãos!

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  2. Faltou uma foto sua com seu cabelo in natura, lindo exuberante...
    Adoro ao natural....
    bj
    Paola

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  3. MAntenho meu comentário... adorei a variedade... mesmo assim faltou a foto da autora do Blog!
    Beijo
    PAola

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  4. belo post dona renata. sempre inventando moda! e ela está na rua mesmo e ao natural é bem melhor! beijos!

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  5. NAO ME CHAMO LUCIANO NAO VIU!!! É FABIO. TAMBEM O CABELO NAO É DREAD CRESCENDO E SIM DUAS PONTAS ENTRELAÇADAS COM AS PONTAS PRESAS A ELASTICO DE SILICONE

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  6. Rê, arrasou mais uma vez. Esse é um tema que discuto muito, principalmente com as meninas do Trançando e Tecendo Arte.
    Agradeço a referência (acho que sou eu :P) e concordo que faltou vc aí arrasando de black power...

    Sensacional o Le Coil, não conhecia essas fotos, todas muito lindas. Seu texto tá como sempre, muito na medida, vc escreve muito bem flor, parabéns.

    Beijão, até breve...
    I <3 CRESPO!

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  7. Nina, é você sim. Vou colocar o sobrenome. Beijos, linda!

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  8. Lindos, lindas, adoro. Sou paga pau assumida. A beleza está na diferença, sutil, própria, no estranhamento. Tem gente que gosta do que é fácil, não se dedica a buscar o belo em formas não convencionais. Seja o cabelo duro, as formas fora do padrão, a altura, enfim..
    Renata, faltou uma foto sua. Beijos!

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  9. Rê, eu tenho uma observação...desde quando cabelo crespo é "duro"? Na verdade, são os mais fofos! Às vezes eu fico reparando no metrô...a maioria das mulheres - a maioria mesmo - alisam o cabelo, mesmo quando quase nem se tem mais cabelo para isso(de tanto pesistir na idéia...)...triste...aí sim eles ficam "duros"...rs...E em programas de tv populares, "arrumar" o cabelo, via de regra, significa alisá-los...trash...Bjocas!

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  10. Fábio, agradeço o sorriso e seu tempo para a fotografia, corrigi seu nome, me desculpe, foi a agitação do domingo. Gente, tenho mais imagens para acrescentar, mas vai em outra postagem. Madame Lambert, cabelo "duro" para retomar as falas populares, também acho fofo, é fofo! Na época da minha mãe, arrumar os cabelos era colocar peruca.
    Obrigada a todos que se manifestaram. Propaguem o pensamento!

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