quinta-feira, 22 de setembro de 2011

A mulher negra e/na Arte

É sabido que as mulheres negras estão na base da nossa pirâmide social. E se pensarmos de forma muito lato elas estão na base não só que diz respeito às piores condições de acesso à quase tudo (salários, saúde, educação etc.), mas também nas questões mais essenciais e básicas da formação do nosso povo como figuras centrais da constituição de uma dada "personalidade brasileira". Modos de falar, de andar, de comer e de se relacionar em muitos lugares do Brasil possuem características que foram agregadas ou criadas pelas cuidadoras negras (de brancos e negros, às vezes, de povos da terra e de japoneses, por que não?), amas de leite, mães pretas, mucamas,e pós-abolição as empregadas do lar, em suas múltiplas dimensões.
Mas, e nas artes plásticas? Que lugares ocupam estas mulheres de cor marrom? Há uma longa tradição de endeusamento, idealização e fragilização da figura feminina desde a Vênus de Willendorf (já citada neste blog) até os dias atuais. Com a diferença de que se antes quanto mais reserva de gordura melhor para garantir a fertilidade e a atração do outro masculino, hoje quanto mais atlética e turbinada melhor. A sociedade vai esculpindo coletivamente a mulher que considera ideal na medida em que valida os modelos que são veiculados pelas diversas mídias. E valida como? Impondo atrizes, cantoras e a maior parte das mulheres que aparecem com medidas e aparência bem similares e, como consequência, mesmo inconscientemente, muitas outras mulheres passam a adotar estes modelos como os de "beleza" que devem seguir, quase militarmente. Vejamos o exemplo da Miss Universo, uma angolana. Realmente, como mulher negra não me senti elogiada ou valorizada esteticamente na medida em que as misses eram todas iguais em suas medidas, penteados, configuração dos rostos. Eu adoro as Barbies, tenho várias. Vi ali o meu sonho de infância, Barbies mulheres, adultas, andando. Só mudavam as cores de pele e formatos de olhos, particularidades que embelezam a diversidade de tipos humanos não estavam evidenciadas ali. Enfim, evidentemente é uma questão de um pouco de conhecimento e esclarecimento, qualidades (?) que não são prezadas, de modo geral.
Sem lembrar de músicas, obras de arte, objetos de uso cotidiano e personagens depreciativas quando adotam o padrão da mulher negra para fazer humor ou demonstrar repúdio ou preconceito. Eu detesto, por exemplo, a personagem "Nega Maluca", seja humano travestido seja boneca mamulenga. É depreciativo do que são as mulheres negras. Também me desagradam as perucas "Black Power" como artefato para ser utilizado no Carnaval ou em comemoração à fantasia. Ou ainda, pensar naquele doce "teta de nega". Bem, a lista é infindável. Não adianta tentar mascarar tais nomes e práticas como "perseguição", "complexo" ou seja lá o que for. Não existe bolo "Loira louca", doce "Bunda de ruiva" ou seja lá o que for. Prestem atenção! Isso não é coincidência. As facetas do preconceito e da discriminação racial agem a partir de estratégias impressionantes e são muito eficazes, tanto que naturalizamos tudo isso, como se sempre tivesse sido assim, como se devesse ser assim! Sem citar as músicas como a do nosso saudoso Luiz Caldas. Há festas, como a do Santo Forte só para citar um exemplo, que eu gosto bastante, mas acho meio sem noção as pessoas dançarem algumas músicas tão alegremente sem se ater às letras:

"O seu cabelo não nega mulata..."
"Olha a nega do cabelo duro que não gosta de pentear..."
"Nega do cabelo duro, qualé o pente que te penteia..."
" Nega não precisa nem dizer, nega não precisa nem pensar..."

Então? Eu me senti mal, não volto mais lá. Até porque a cerveja está bem cara rs. Quero que alguém se atreva a fazer uma lista de citações musicais com este teor, porém tendo como tema as mulheres brancas, ou melhor, loiras. Envie-me, por favor. Assim, não pensarei que eu e as outras negras é que somos "perseguidas" mesmo. Triste, né?

Nas Artes Visuais, podemos citar alguns artistas que tiveram a mulher negra como inspiração e referência do que pode ser belo. Pessoal, essa ideia de "belo" na concepção greco-romana que se deseja (quem?) perpetuar é absolutamente contra a rica natureza humana.

Iniciei este texto há dois meses, por falta de referências visuais só consegui finalizar agora e creio que ainda faltam muitas e muitas imagens. Vamos pesquisar juntos, mandem referências de obras de arte que elogiem a mulher negra. Não vale o Di Cavalcanti, era um elogio desejoso o dele, do consumo destes corpos em um momento de ufanismo. Os senhores de escravos também desejavam os nossos corpos. Demorei a entender este desejo do homem branco não como algo relacionado a este passado. Foi dolorido. E é dolorido saber que a Camila Pitanga foi eleita a negra mais bonita do Brasil. Quanto mais próxima do branco melhor. Quero ver a Adriana Alves ganhar este título! A gente consegue?

Marina Montini, a modelo predileta do pintor Di Cavalcanti. Quase uma deusa de tão linda!
A bela Camila Pitanga eleita a negra mais linda do Brasil por internautas.

A atriz Adriana Alves que mesmo muito linda, nunca levaria este título porque aqui para ser negra e bela é necessário pelo bege, traços faciais semelhantes aos do fenótipo branco e cabelos cacheados.

Eu gosto da minha cor, de ser mulher negra, porém eu aprendi isso com o tempo. Enfatize-se, pouco tempo, menos de 10 anos. Porque a gente é criada, de forma geral, para destestar este corpo, este cabelo, esta boca. Hoje eu sei o quanto pode ser maravilhoso ser uma mulher negra. certa vez, em Londres, uma criança brande uns dois anos, linda, ficou me olhando na London Eye. Queria me tocar, sorria e queria ficar perto. Nos apaixonamos. Minha amida Patrícia tirou fotos belíssimas. Eu vejo estas imagens e me encanto, e me emociono. Nós nos apaixonamos. Este encantamento pelo outro, pelo diferente está se perdendo. Tem que ser igual, quanto mais uniforme melhor, sempre. Vamos resgatar a apreciação, a beleza de ver alguém fora do padrão imposto como belo.

Seguem algumas obras de arte que consegui pesquisar. Mesmo assim, Leila Lopes (Miss Universo 2011), parabéns!

Retrato de mulher negra de Jean-Auguste Dominique Ingres (1780 - 1867), pintor francês do período romântico. Os artistas desta escola tinham especial interesse pelo mundo diverso do que era a civilização europeia. Influenciados pelas ideias do filósofo Jean-Jacques Rousseau (1712 - 1778), eles tiveram como referências o universo árabe e africano para compor as suas telas. Há um clima exótico nestas produções, entretanto, não deixa de ser interessante e importante ver esta mulher não representada como uma serviçal ou mais um elemento compositivo, e sim, como sujeita desta pintura.

Retratoesde mulheres negras, muitas africanas, que o artista alemão (bávaro) Johann Moritz Rugendas (1802 - 1858), observou na cidade do Rio de Janeiro enquanto esteve por estas terras no início do século XIX. A sua intenção era a de  registrar tipos negro-africanos e, se possível, identificar as nações às quais estas pessoas pertenciam. Observe como a ênfase é dada na ornamentação destas mulheres e nos penteados. Provavelmente, eram escravizadas que serviam nas casas ou mesmo mulheres livres.

O italiano de Lucca, Alfredo Volpi ( 1896 - 1988) tinha um grande interesse pela cultura popular, depois é que ele vira o "pintor das bandeirinhas" que, paulatinamente, vai se aproximando formalmente da pesquisa dos artistas concretistas. Em 1927, ele conhece a garçonete Benedita da Conceição, apelidada de Judith, que foi seu grande amor por toda a vida e modelo para a tela acima sob o título "Mulata".

Uma das poucas mulheres negras e não mestiças (mulatas) de Emiliano Di Cavalcanti (1897 - 1976). Desculpem os "mulatos", existe sim uma postura política e, portanto, ideológica ao se afirmar "negro"; nos estados Unidos e em muitos outros países não existe esta distinção. Todavia, no nosso país, ela existe e sempre foi utilizada para bem e mal, por todos. Sem contar quantos não são os "mulatos" que se esquecem de suas origens negras. Isto é uma parte da história, o burado é mais embaixo.

Uma das mulatas de Di Cavalcanti inspirada na modelo Marina Montini. Ela era uma deusa.

Uma das grandes deusas, nanas, madonnas negras da francesa Niki De Saint Phalle (1930 - 2002). Um elogia à força, grandiosidade e beleza dos corpos negros femininos. Vale ver as obras dela na maravilhosa PINACOTECA DO ESTADO DE SÃO PAULO. Há um belo texto na serigrafia que se encontra defrinte à fonte.

Mickalene Thomas (1971) já figurou aqui no blog em texto anterior sobre a produção recente de artistas negros. Ela retrata mulheres negras em colagens e pinturas sempre demonstrando altivez, sensualidade e sabedoria que são inerentes a estas figuras que nos transmitem muita segurança. Aqui, um modelo de mulher negra, bela e bem sucedida. Quero ser assim! Feliz haver obras como esta!

Este texto é dedicado à Luciane Ramos, Janette Santiago, Regina Santos, Renata Bittencourt, Alexandra Ucanda, Valéria Alencar, Débora Marçal, Sarah Rute (em memória), Roberta Felinto e Lilian Aparecida, minha mãe, uma das mulheres mais lindas que já vi em sua plenitude jovial. Moças que me inspiram e que me fortalecem.

5 comentários:

  1. Renata,

    Espero que vc goste e aceite como uma homenagem. http://4.bp.blogspot.com/-1Ua2fVxqt-Y/Tru89w2P7RI/AAAAAAAAA3o/HP2ukguJXOI/171.JPG. Um grande abraço, neste 20 de novembro.

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  2. Oi... A primeira que vc colocou como ressalva vc pôs a autoria de um homem, mas na verdade foi o primeiro retrato de uma mulher negra pintado por outra mulher. Que foi Marie-Guillerme Boinst. Boa sorte!

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  3. Estudo muito importante, mas considero o termo "bege", usado para classificar mulheres mais claras, pejorativo tanto quanto "mulata" ou o "pardo". Grata.

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  4. Muito elucidativo o seu texto! Obrigada!

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  5. Muito lindo tudo isso! Parabéns moça inteligente!
    "Este encantamento pelo outro, pelo diferente está se perdendo. Tem que ser igual, quanto mais uniforme melhor, sempre. Vamos resgatar a apreciação, a beleza de ver alguém fora do padrão imposto como belo." Renata Felino

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