segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Uma estética negra na literatura... Existe?

 
Eu sempre gostei muito de ler. Me lembro de ter pedido à minha mãe que me matriculasse na Biblioteca Vinicius de Morais que fica em frente à Cidade dos Velhinhos no Conjunto José Bonifácio, a COHAB 2. Meu pai me dava uns trocados e eu ia de ônibus até lá, porque eu tinha uns 11, 12, 13 anos e tinha que subir uma avenida para chegar lá, ficava muito cansada com minhas perninhas de negrinha magricela. Tenho certeza de que não descendo de etíopes, rs.
Assim, desde esta idade, a minha experiência com a literatura é como leitora. Cheguei a produzir textos inspirados nos que eu lia como as histórias de adolescentes de Márcia Kupstas (1957), que eu adorava e que eram publicados também na revista Capricho, ou ainda, todos os livros da série Vaga-lume, o clássico A Droga da Obediência, de Pedro Bandeira (1942), até chegar ao meu primeiro livro de adultos: Venha Ver o Pôr do Sol, da grande Lygia Fagundes Teles (1923).  
Pra mim não existia o conceito de literatura negra. Não existiam, dentro deste vasto universo de livros aos quais eu tinha acesso, nada que se referisse à cultura de matriz africana. Lembro até que as personagens de Lygia eram sempre de classe média e brancas e que algumas frases me incomodavam, mas ela, como autora, representava justamente o universo no qual estava inserida, assim, qual era o problema? Nenhum. Os escritores, de modo geral, retratam o ambiente no qual vivem, escrevem a partir de suas vivências e conhecimentos, deste modo, se eu não tinha acesso aos autores negros, não leria nada sobre personagens negras, a não ser de maneira depreciativa e estereotipada como sabemos que muitos autores trataram a figura do negro. Nem preciso entrar nesta seara.
Quando soube que Machado de Assis (1839 – 1908) era mestiço (ou negro em qualquer outro lugar do mundo), tentei ler alguns de seus livros e percebi que também não havia nenhuma referência em relação à cor de sua (e da minha) pele. O mesmo aconteceu no caso de Cruz e Souza (1861- 1898). Alias como era difícil compreender aquela poesia antes de conhecer o movimento simbolista e entender as suas premissas, porém este é outro assunto.
Estes autores negros e mestiços do final do século XIX, não tinham em suas formações e cotidianos realidades que dialogassem com a cultura de matriz africana ou negra. Ou talvez não quisessem vê-los, pois precisavam ser aceitos como homens honrados, cavalheiros distintos. O que significava a negação de suas raízes que, até então, era altamente marginalizada, mais que hoje em dia, praticamente inexistia, não era considerara cultura, era como se fosse um desvio das condutas do ser humano. Para entender essa ideia é preciso conhecer um pouco sobre o darwinismo social que é um conceito que se diz científico porque baseado nas ideias do naturalista inglês Charles Darwin (1809-1982), que pregava que a humanidade tinha graus de evolução que se refletiam não somente na aparência, mas acima de tudo no desenvolvimento intelectual e cultural, e claro, que os afrodescendentes estavam na base desta evolução. Ou seja, são as premissas do clássico A Origem das Espécies, transposta para a realidade étnica e social. Quando as pessoas falam sobre a escravidão negra pensam que a mesma se deu devido ao racismo, entretanto, estes conceitos são forjados somente no século XIX, é neste momento que alguns brancos inventam que são melhores que os demais povos do modo. Até então, as justificativas para dominação eram de base religiosa católica ou comercial. Para saber mais sobre esta questão leia A Invenção do Ser Negro, da fabulosa Gislene Aparecida dos Santos. Enfim, os escritores negros que surgiram antes do século XX tinham modos de estudar, de falar, de se comportar que se remetiam muito diretamente ao modelo europeu, mais precisamente ao francês, desta maneira, ser negro, valorizando determinados conhecimentos em detrimento de outros, era absolutamente fora das possibilidades reais. Assim, concordo com o Sr. Ferreira Gullar quando, na semana passada em seu blog, questionou o termo literatura negra para se referir a estes escritores dos oitocentos. Não havia sinal algum de negritude em seus escritos, era a cultura ocidental branca que segue e respeita a norma culta que se usava para redigir e criar e são as mesmas que norteiam o imaginário que, naquele momento, tinha estreita relação com os valores clássicos, pensando que estávamos no neoclassicismo.
Escritores negros e  mestiços que tratam da cultura negra como tema aparecem com força somente a partir da segunda metade do século XX. Evidentemente que, antes disso, podemos citar a figura de Luís Gama (1850-1882), poeta, jornalista e abolicionista que acredito ter escrito as primeiras poesias negras dentro deste conceito de literatura negra. Lima Barreto (1881-1922), também trata do preconceito do branco contra o mulato em sua obra, a maneira de uma denúncia. A esse respeito, negros falando sobre negros em seu trabalho literário, vale muito a pena ler o artigo de Domício Proença Filho que está citado ao final destes pensamentos transcritos aqui. Sem desmerecer os demais artigos aos quais tive acesso, creio ser este o mais completo e o que consegue distanciar paixão de estudo, não que estudo não seja também paixão. Mas, ele consegue fazer uma análise mais distanciada.
Gostaria de agregar a este pensamento compartilhado, este trecho de um texto publicado no blog do poeta Ferreira Gullar, em 04 de dezembro, semana passada, e que gerou muita polêmica:

... Mas, infelizmente, na literatura, essa descriminação começa a surgir. Não acredito que vá muito longe, uma vez que é destituída de fundamento mas, de qualquer maneira, contribuirá para criar confusão.
Falar-se de literatura brasileira negra não tem cabimento. Os negros, que para cá vieram na condição de escravos, não tinham literatura, já que essa manifestação não fazia parte de sua cultura.
Consequentemente, foi aqui que tomaram conhecimento dela e, com os anos, passaram a cultivá-la.
Se é verdade que, nas condições daquele Brasil atrasado de então, a vasta maioria dos escravos nem sequer aprendia a ler - e não só eles, como também quase o povo todo - com o passar dos séculos e as mudanças na sociedade brasileira, alguns de seus descendentes, não apenas aprenderam a ler, como se tornaram grandes escritores, tal é o caso de Cruz e Souza, Machado de Assis e Lima Barreto, para ficarmos nos mais célebres.


É muito engraçado como sempre que o negro resolve nomear ele próprio o que produz culturalmente, ele é taxado de propagar, incitar o preconceito. Como se a ausência e a omissão não configurassem preconceito cultural também. Diga-se de passagem que este é o nome do texto: “Preconceito Cultural”. Bom, vamos lembrar da literatura oral africana e sagas como a de Sundjata – o Príncipe Leão, o líder malinque. Isso é literatura assim como são a Ilíada e a Odisséia de Homero que, por muitos anos, tiveram a oralidade como veículo preservador e propagador desta criação. Depois é que as mesmas são registradas em escrita. Vamos pensar bem...
Pode-se afirmar que a tal literatura negra surge quando os negros começam a falar de si. E, como bem reflete Domício Proença Filho:"Tem-se, desse modo, literatura sobre o negro, de um lado, e literatura do negro, de outro", que precisamos aprender a diferenciar. Evidentemente que numa sociedade que "concede" a libertação da população negra do julgo da escravidão, sem planejar possibilidades de ascensão socioeconômica e sem perspectivas de equiparar condições de vida, o que estamos tentando realizar hoje a partir das ações afirmativas (incompreendidas por muitos por falta de informação proposital das diversas mídias), a cultura e o indivíduo negro são desprezados e eclipsados pela literatura branca predominante. Literatura branca porqu só se fala e se mostra positivamente o universo branco, isso é evidente. Quando o negro aparece representando é de maneira a marginalizar e desprestigiar o seu lugar no mundo, inclusive no mundo das ideias.
Castro Alves (1847-1871), que é o primeiro poeta a humanizar a figura do negro e se pauta em uma ideia de África e africanidade que se relaciona muito mais com o mundo islamizado e com os conceitos adotados pelos artistas orientalistas que tinham as mentes borbulhantes devido aos mitos e exotismos que os atraíam para o mundo árabe. A África do Benim, da Nigéria, da República Democrática do Congo, dentre outros países nomeados posteriormente e de onde foram trazidos africanos para o Brasil, não aparece em suas obras, ele representa uma África absolutamente imaginada, idealizada, tal qual é também a função da arte, fazer imaginar. O Congo citado em sua obra é o Congo inventado e tudo o que se referia a uma África profunda no século XIX e princípios dos XX poderia ser resumido pelo juízo de Congo concebido.
Castro Alves não era negro, ele tratava também dos negros em suas obras. Não vamos confundir esta questão. Aí, até podemos afirmar com mais ênfase que nasce uma literatura negra dos moldes da que vem sendo defendida por muitos, entretanto, neste caso o autor não é negro. Se formos tratar da literatura negra como sendo escrita só por negros e com temática correlata, Castro Alves não se encaixa. Lembremos que é diferente falar sobre a representação da figura do negro como personagem na literatura e falar de literatura negra. Muito diferente. Estamos a falar de produção e do produtor negro tendo a sua história como tema propulsor de sua ação criadora. De uma estética literária negra. Acho que é isso. E para haver uma estética negra nas artes, de modo geral, há que se ter cuidado para que o espírito militante não se sobreponha ao criador, ao artístico. Carolina Maria de Jesus (1914-1977), Nei Lopes, Abdias do Nascimento (1914-2011), Cuti (fundador da série Cadernos Negros), Oswaldo de Camargo, Solano Trindade (1908-1974) dão corpo à chamada literatura negra juntamente com outros autores. Olha que forte esta poesia de Cuti:

FERRO
Primeiro o ferro marca
a violência nas costas
depois o ferro alisa
a vergonha nos cabelos
Na verdade o que se precisa
é jogar o ferro fora
e quebrar todos os elos
dessa corrente de desesperos

E de Solano Trindade, esta poesia que é a de que mais gosto:

OU NEGRO
A Dione Silva
Sou Negro
meus avós foram queimados
pelo sol da África
minh'alma recebeu o batismo dos tambores atabaques, gonguês e agogôs
Contaram-me que meus avós
vieram de Loanda
como mercadoria de baixo preço plantaram cana pro senhor do engenho novo
e fundaram o primeiro Maracatu.
Depois meu avô brigou como um danado nas terras de Zumbi
Era valente como quê
Na capoeira ou na faca
escreveu não leu
o pau comeu
Não foi um pai João
humilde e manso
Mesmo vovó não foi de brincadeira
Na guerra dos Malês
ela se destacou
Na minh'alma ficou
o samba
o batuque
o bamboleio
e o desejo de libertação...

De Oswaldo de Camargo, aprecio esta lucidez ao falar de literatura negra:

Acredito que a partir do momento que o negro resolve falar de sua realidade e identidade como negro, trazendo as marcas de sua história, mesmo dentro de uma língua portuguesa, ortodoxa, acadêmica, que seja, se ele conseguir fazer isso com arte e se essa literatura estiver sancionada por uma produção, ela existirá. A produção existe. É fato. Portanto, atestada pela produção, a literatura negra existe. Quando o negro pega suas experiências particulares e traz, sobretudo o "eu", a persona negra, com suas vivências, que um branco pode imitar mas não pode ter, o nome que damos a isso é literatura negra... la começa a existir a partir do momento que o negro olha para si mesmo e passa a contar como negro suas experiências particulares, suas memórias, sua vida, suas diferenças, sua identidade, mesmo que esta escrita tenha como base um português camoneano. A grosso modo podemos iniciar este movimento com Luís Gama ao escrever o poema "Bodarrada", que traz o problema da identidade negra. Um texto como "Bodarrada" só poderia ter saído de um negro. O branco não pode idealizar isto, pois o autor está trazendo sua experiência particular de negro. É verdade que podemos citar, no século XVIII, Domingos Caldas Barbosa, mas aí de uma maneira mais enfraquecida, o "Eu", mesmo, aparece apenas com Luís Gama. Depois vem Cruz e Souza com "Consciência Tranqüila", "Escravocratas" e sobretudo "Emparedado". Essas obras são particularíssimas, jorram de dentro de um "Eu" negro. 


O fato é que há vários escritores querendo trazer a realidade do negro para os contos, romances, poesias e peças de teatro. Pessoas que vislumbraram em seu cotidiano e contextos de criação e educação formal e informal as bases para o desenvolvimento de uma literatura que vem sendo chamada de negra e, por vezes, se mistura com a que vem sendo denominada como periférica. Entretanto, mais que se preocupar com os rótulos, devemos nos pautar nas realidades e pontos de vistas trazidos pelos autores; nas relações entre os diferentes que as obras abordam; nas questões da visibilidade e depreciação ou apreciação do corpo e conhecimento negros em nossa sociedade; e, o principal, no caminho das pedras percorridos pelos autores que tentam mostrar sensualidade e sexualidade negra a partir da observação deste corpo dantes desqualificado como belo e atraente dentro de seus padrões fenotípicos, de suas formas próprias, dos narizes largos, das peles escuras, das bocas carnudas, dos bundas avantajadas, dos cabelos crespos, das canelas finas, dos ventres salientes (como nas esculturas tradicionais africanas), enfim, uma corporeidade negra.
Dá para citar a Elizandra Souza, a Raquel Almeida, a Priscila Preta, a Tula Pilar, a Maria Tereza (já falecida), o Allan da Rosa, o Caruru, o Luan Luando, o Zinho Trindade, todos escritores que se baseiam primeiramente em suas experiências de vida para criar e para compartilhar reflexões em forma de texto poético, soneto, prosa, tanto faz. O que se quer é comunicação com beleza contemplatória ou conscientizante. Olha um poema de Priscila Preta, adoro! São todos muito sensuais e é uma sensualidade negra possível:

ENTRE

Sua boca toca a pele de minhas costas, quase não tocando
 Meus pêlos respondem se levantando
O beijo molhado quase seco tem respostas em movimento
O Vento percorre do coro cabeludo a sola do meu pé
Seu peito toca minhas costas
Sinto seu peso
Sua boca encontra minha orelha
A minha boca solta um suspiro
Respiramos juntos
Não sei mais onde eu começo e você acaba
Um cheiro nosso que exala
O encontro de nossas pretas peles pétalas
Estamos um em posse do outro
Como uma locomotiva chegamos a 200 por hora
Juntos apertamos o freio da satisfação
Me dissolvo em você
Você desmancha em mim
Somos o encontro do rio e do mar
A pororoca do Tesão.

Pra quem quiser baixar, o site das Edições Toró, fundado por Allan da Rosa, tem o “Negrices em Flor” de Maria Tereza disponível. Olha que gentileza! Os textos dela vão da docilidade infantil à uma agressividade sexualidade. Variam muito. O mais importante é que me descobri mulher negra muito por conta da convivência com esta figura andrógina, forte e linda que nos deixou há pouco. No site há vários outros livros interessantes e gratuitos, não há desculpa para não ler:


Ah, um exemplo importante para problematizar e refletir sobre a cor, ascendência como determinante da denominação de uma dada produção. A grande Yedamaria, artista plástica e minha avó por adoção, pinta naturezas mortas belíssimas, mas não há nada de negritude nisso. Ela optou por uma temática, não dá para falar de paleta negra, ou e uma arte negra em seu caso. É arte, simples assim. Deste modo, acredito que quando o negro se torna tema da escrita do negro e seus valores culturais, sociais, religiosos e estéticos são fundamentais para dar corpo à obra, podemos dizer que surge então uma literatura negra.

E será que a pintora Yedamaria faz arte negra?
 
Sobre a literatura feita por autores afrodescendentes, sejam literatura negra ou somente literatura, seguem algumas referências de artigos, ensaios e afins que acessei via internet:

Por Carina Bertozzi, "Literatura negra – uma outra história", em http://www.cronopios.com.br/site/ensaios.asp?id=2649

Por Domício Proença Filho, A trajetória do negro na literatura brasileira em http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-40142004000100017&script=sci_arttext

“Literatura e Afrodescendência no Brasil” é composta por quatro volumes, a antologia, foi organizada por Eduardo de Assis Duarte e Maria Nazareth Soares Fonseca.

Para conhecer alguns autores da nova geração:

Akins Kintê:
akinskinte.blogspot.com/

Allan da Rosa e outros autores:
www.edicoestoro.net

Cidinha da Silva:
http://cidinhadasilva.blogspot.com/

Elizandra Souza:
mjiba.blogspot.com/

Zinho Trindade:
zinhotrindade.blogspot.com/

E para prestigiar, no dia 20 de dezembro teremos o lançamento do livro A Descoberta do frio, do jornalista, escritor, músico e poeta Oswaldo de Camargo. Olha o convite aí, gente! E vamos pensando que tem muita coisa para ponderar.




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