sexta-feira, 22 de junho de 2012

Dreads: os meus são lindos, perfumados e limpinhos

Olha, leitores do blog, se é que existem os que o façam com esta assiduidade, eu estive ausente e não publiquei ou pouco publiquei em maio porque foi um mês de trabalho bem intenso. Tive muitas coisas para fazer na Cubo Preto (lembram do primeiro post do ano?). Pra quem quiser conhecer veja a página no facebook, ela dá acesso ao blog também: 


Não quis fechar este mês sem nada, quero publicar ao menos uma vez por mês ou mais.
Vou escrever sobre uma pergunta que vem me atormentando, coisa mais desagradável. Falaremos de estética, dentro dos padrões que as pessoas pensam que se refere à estética: visual de corpo, rosto e cabelos. Não é só isso, para esclarecer, estética tem a ver com forma, o estudo do belo e da arte, é uma área da filosofia, grosso modo.
Este texto fala sobre dreads, dreadlocks. Quando é necessário ser mais didática, nada melhor do que iniciar um texto com definições oficiais e formais que constam em dicionários e outros meios de conhecimento e informação. Aqui vai uma que encontrei dentre tantas outras que não valiam a pena acrescentar aqui:


1. O Dicionário Informal, ao qual já recorri muitas vezes, pasmem (!), dentre outras explicações mais adequadas, dá a seguinte explicação para dreads: maconha, crack, cabelos... http://www.dicionarioinformal.com.br/sinonimos/dread/

Enfim, as associações feitas entre esta forma de usar os cabelos e tudo que é considerado feio ou imoral são muitas. Mas demos uma breve passada nos usos dos dreadlocks por algumas pessoas, segmentos e povos.

Os "sadhus", ou homens santos indianos que devotam as suas vidas à iluminação espiritual, por exemplo, usam dreadlocks. São mais ou menos uns 4 milhões de endredados na Índia. E assim, como os rastas, sobre os quais falaremos adiante, associam os cabelos arrumados desta forma ao hábito sagrado de fumar ganja (vulgo maconha).
No filme norte-americano "Braveheart" ou "Coração Valente", de 1995, dirigido e atuado por Mel Gibson, dentre outros atores, os escoceses que buscavam  sua independência do julgo britânico, também usavam dreadlocks entre as madeixas soltas. Podemos dizer que à maneira como os hermanos usam hoje. Sabe aquele dreadzinho solto que os argentinos sempre trazem nas cabeças?  Pois é...
Bob Marley (1945 - 1981), saudoso cantor do amor e do reggae, era seguidor da filosofia Ras Tafari ou rastáfari que está conectada à idéia de repatriação da população negra-africana dispersada pela mundo. Talvez tenha sido a figura pública deste cantor que tenha propagado esta forma de usar os cabelos crespos de uma forma mais abrangente. Diz a lenda que na ocasião do falecimento do cantor, vários pequenos animais foram encontrados dentre os seus dreads. Entretanto, não há como saber o que é verdade e mentira quando se trata de um mito que usava seus cabelos de uma forma que está envolta em preconceitos.

Como para os seguidos do Ras Tafari, os rastas, a ganja  é um instrumento de iluminação, de abertura dos canais da mente e serve também para ampliar a percepção da realidade, assim como ocorre com os sadus indianos, as pessoas que adotaram os dreadlocks como estilo e não por conta da adoção da religião são, comumente, identificadas como adeptas do uso da erva. Se trata aqui de um estereótipo que, por vezes, pode ser condizente com a realidade do adepto do penteado, outras não... Quantas pessoas que usam dreads já não foram abordadas por outras pessoas que desejavam uma seda ou uma ponta? O que quer dizer que, para o senso comum, os dreads estão automaticamente relacionados aos uso da erva e à filosofia rastáfari, sobre a qual muitos possuem muitas dúvidas. 
Há muitas explicações para o uso dos dreads junto aos rastas, a mais íntegra delas diz que a justificativa é a de que os humanos sejam como a natureza os preparou, ou seja, mantenha seus cabelos naturais. O que quer dizer que por ser um penteado feito, em geral, por pessoas que possuem seus cabelos naturalmente crespos, se não pentearmos eles se tornarão dreads, e é fato. Não há necessidade de nenhuma cera de mel de abelha, seria um penteado que "Deus" nos deu. Entretanto, uma "manutenção" vez ou outra traz aos mesmos um aspecto menos agressivo aos olhos de nossa sociedade repleta de padrões estéticos engessantes e uniformizantes. 

Para saber mais sobre a filosofia Ras Tafari, acesse:



Faz algum tempo que gostaria de ter feito dreads em meus cabelos, sempre considerei um jeito muito bonito e autêntico de arrumar os cabelos, mas assim como foi um passo muito difícil usar meus cabelos crespos e soltos em "black" após anos de alisamento a partir da chapinha (é, aquela que se coloca no fogão), e depois com cabelos traçados e relaxados, percebi que além de um desafio muito grande ao enfrentar as pessoas nas ruas, seria a minha libertação.
A libertação no sentido de deixar de tentar parecer o que eu não sou, de tentar corresponder a uma idéia de mulher feminina a partir do modelo caucasiano-ocidental-europeu, ou o mais próximo disso. Como escrevi no texto sobre os contos de fadas meses atrás, crescemos, especialmente nós mulheres, tentando nos parecer com o impossível. O que quero dizer é que por melhor que fique o alisado dos meus cabelos, eles sempre serão crespos. Já coloquei megahair também por um curto período de tempo e este artifício se mostrou a melhor maneira de acabar com meus cabelos naturais que ficaram quebradiços e frágeis. Foi a melhor forma de maltratar a minha natureza e era como se eu dizesse que realmente odiava meus cabelos. Na verdade, não havia encontrado a melhor forma de aceitá-lo como ele é e o black foi um excelente e importante passo neste sentido. 
Numa consulta à minha psicanalista, desabei e falei sobre este medo de endredar os cabelos e ser hostilizada, mas, principalmente, de não encontrar empregos, trabalhos que me aceitassem desta forma. Ela me respondeu que um lugar que não me contratasse por conta dos meus cabelos, não era de fato, um lugar onde eu me sentiria bem trabalhando seja lá com que cabelo fosse. Algo assim. Pensei muito e é verdade, ninguém precisa suportar ninguém, muito menos a imagem de alguém. porém, é engraçado como a liberdade de ser do outro pode agredir alguém, pode ferir, incomodar... Free, cada um na sua, lembra?
Endredei o black que eu tinha e coloquei uma extensão de cabelos endredados naturais. Fiquei muito, muito feliz. Minha cabeleireira, Kelly Cristina (do Glamour "Fashion Hair"), disse que nasci para usar dreads, mesmo que ela tenha perdido uma de suas clientes mais assíduas, já que agora vou de três em três meses dar uma ajeitada nos fios que escapam aos rolinhos de dread. Ela fica na Galeria do Reggae, ao lado da Galeria do Rock, para quem quiser ir, ela é muiiito boa!
Hoje me sinto eu. Me considero bela com estes dreads, combinam mais comigo. Usar os cabelos como eles são, naturais, é um aprendizado para nós negros. Num país onde homem negro bom raspa a cabeleira quase careca e a mulherada tem que alisar, é uma atitude de afirmação e enfrentamento muito grandes usar os cabelos compridos e de modo natural, seja black, seja dread, seja o que for. Muita coragem de ser quem somos!

Como fiz as fotos em abril, não encontrei alguns dos nomes dos fotografados. Se um de vocês ler este texto, por favor, me passe seu nome. Aqui faltam Edson Felinto, Ronaldo PJ, Janaína Freitas e muitos outros, mandem fotos também. Eu posto!
Vejam alguns exemplos de endredados que encontrei pelos caminhos que andei. Peço desculpas aos fotografados porque fiquei de postar estas imagens faz quase dois meses, mas estão aí:

Vanessa Teixeira, do Quinteto Abanã. Agora ela raspou uma das laterais dos cabelos. Abaixo mais imagens da bela cantora lírica.
Vanessa com a lateral recém raspada.


Várias possibilidades de penteados.
Giovani Di Ganzá, do Quinteto Abanã.
A poeta Raquel Almeida, fundadora do Sarau Elo da Corrente.
Um mocinho amigo do percussionista Manoel Trindade e o próprio no melhor estilo Living Colour.
Cabelos limpos, lindos e com balanço da fotógrafa Mel Duarte.
Dreads perfumados.
Dread couple.
A MC Amanda Cristina, a Miscível.
Zinho Trindade, cantor, escritor e MC.

Dread é sensual.


O designer e DJ Ronaldo PJ, dos primeiros a aderir os dreads entre os meus amigos. 
O fotógrafo Ierê Ferreira.
O músico e historiador Marcos Felinto que usa dreads desde os 14 anos.


A produtora Thays Quadros que deixou os cabelos endredarem naturalmente e ninguém acredita quando ela fala. Estão lindos!!


Edson Felinto em versão noturna com dreads soltos e chapéu. Puro estilo...

E visitando Embu das Artes.