sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Arte é, primeiro, arte!

No dia 25 de novembro, por uma graça divina, o Núcleo de Educação do Museu Afro Brasil, venceu uma grande batalha, com muito convencimento, justificativas, conversa de cá e conversa de lá, o coordenador Claudinei Roberto conseguiu organizar uma mesa redonda com alguns dos artistas afrodescendentes mais proeminentes do cenário atual. Claro que, para uma primeira mesa redonda sobre arte contemporânea afro-brasileira (tenho deixado de utilizar esta terminologia, mas o Museu Afro Brasil ainda a adota como forma de "agrupar", talvez, de organizar a produção desses artistas), tiveram ausências, tanto de tempo, quanto de assuntos a serem debatidos, quando de mulheres. Compunham a mesa redonda o quadrinista Marcelo D'Salete, que possui dois belos livros lançados, "Noite Luz" e "Encruzilhada"; os artistas plásticos Neco Soares, Rosana Paulino, Sidnei Amaral, Tiago Gualberto e o multi artista Alex Hornest, que ainda é o ONESTO das ruas paulistanas (e mundiais), nas horas vagas. Aliás, ele não deixar as ruas porque foi para as galerias, é louvável, não deixou suas raízes.
O título da primeira mesa redonda do Museu Afro Brasil sobre a arte contemporânea que ele apresenta, propaga e divulga foi "Arte contemporânea afro-brasileira", e, das 14h30 às 17h e pouco, realizamos uma conversa que precisaria de mais encontros, talvez semestrais, para ficarem em poucos, e de mais profundidade. 
Obviamente que se o título valoriza a ascendência dos artistas, não haveria como não iniciar as perguntas por este viés. E elas foram muitas. A partir dessa introdução, desse primeiro momento, valeria aprofundar a discussão nas questões da própria arte contemporânea e não origem étnica dos artistas. Considerei absolutamente desnecessário o "afro-brasileiro" do título da mesa redonda, porque induz e empobrece a discussão  Que eles são todos negros é visível, mas a arte que produzem é mais importante do que esta questão, ainda que, em alguns casos esta intrinsecamente conectada à...
Outro aspecto que considero importante que seja ponderado, é o fato de nem todos os artista tratam de questões de africanidade ou afro-brasilidade em suas obras, o que reitera o fato do título se tornar mais impertinente ainda. 
Dos artistas "pinçados" para a atividade, podemos afirmar que Marcelo D'Salete, Rosana Paulino e Tiago Gualberto se interessam mais diretamente por esta problemática. Basta ler os livros de De Salete e visitar o blog de Paulino e o flickr de Tiago. Todos os trabalhos possuem este tom, até porquê o questionamento é inerente ao ser, e no caso deles, fica evidente que querem dizer algo acerca destas questões, seja o que lhes incomoda, seja o que os encanta. Não são produções meramente estéticas no sentido das possibilidades de diálogos com os próprios conceitos formais da arte, são profundas e mergulham na historicidade, nos pensamentos antropológicos e conceitos sobre o ser negro, afrodescendente, mestiço, brasileiro, etc. São extremamente pertinentes dentro de uma perspectiva de arte afrodescendente, prefiro este termo que Roberto Conduru e Nelson Inocêncio vêm empregando.
Sidnei Amaral, Neco Soares e Alex Hornest desbravam outras searas. O trabalho de Amaral, por exemplo,é particularmente diferenciado se pensarmos nas esculturas objetos que vem produzindo, seres e formas híbridas em bronze e/ou latão esmaltados. Os autorretratos, em especial, são bem interessantes e intrigantes também, onde ele se coloca em diversas situações, em luta contra o matrimônio metaforizado pelo vestido de noiva, quase que uma luta vencida, ou mesmo, as representações junto aos seres mágicos da mitologia brasileira. Exímio pintor e aquarelista! Dos meus prediletos. Isso, não estou tentando nenhuma imparcilidade! Alexandre Araujo Bispo, antropólogo e curador, nas horas vagas também é artista, ainda que tímido, redigiu um belo texto sobre Amaral, fez o mesmo acerca da excelente produção de Paulino e de Yêdamaria. Ambos podem ser acessados pelo site da revista O Menelick 2ºato, que trata de afrourbanidades e para a qual contribuímos e compomos o conselho editorial à convite do jornalista cultural José Nabor Júnior, idelaizador da mesma. Para quem não conhece:

De passagem a revista foi citada como o único veículo que propaga crítica sobre arte contemporânea feita por artistas negros. Ficamos lisonjeados, mas é pouco, muito pouco. Nem a própria revista do Museu Afro Brasil, a linda Afro B, tem se prestado a este papel da crítica de arte contemporânea. Por favor, mais amor para os nossos artistas. 
Não cabe aqui comentar todas as falas, todas as questões levantadas pela parca plateia, todas as argumentações e reflexões feitas por alguns dos artistas mais pensantes, outros ficaram bem calados, estranho. Inclusive, cansa um pouco esta história de que não há espaços de interlocução e quando há, as pessoas não saem de suas casa para prestigiar, fazer corpo, demonstrar que sim, queremos mais!! Particularmente, me surpreendi bastante com posicionamentos do jovem Tiago Gualberto, sabe o que faz e seus motivos. Paulino, nem se fala, se tornou uma sumidade, herdeira, de certo modo, de Yêdamaria, minha amiga particular e artista plástica que estava na plateia e não na mesa (!), ela vem se destacando dentro e fora do país. Era a única mulher da mesa, nisso que me referia às ausências no início do texto. Digo ausência porque, por exemplo, Lídia Lisboa e a persona que vos escreve foram contempladas pelo II Prêmio Nacional Expressões Culturais Afro-Brasileiras de 2012, promovido pelo poderoso MinC e pela Fundação Cultural Palmares, por que não? No ano passado, os artistas visuais contemplados foram Rosana Paulino e Alexa Hornest, ambos estavam na mesa redonda. Além disso, também estava presente a talentosa Janaina Barros, sobre a qual escreverei um texto muito em breve. Enfim, o sexismo norteia as escolhas dentro do espaço do Museu Afro Brasil, no acervo são pouquíssimas as mulheres presentes, movimento que vai na contramão do mercado de arte, ainda que o grupo Guerrilla Girls, que já foi abordado aqui no blog, questione os lugares das mulheres nas artes, e é mister fazê-lo, as artistas que mais valem no exterior atualmente são duas mulheres, Adriana Varejão e Beatriz Milhazes, pois é sim.
A iniciativa foi histórica, como reconheceu Claudinei Roberto, queremos e precisamos de mais. 
Parabéns aos artistas, parabéns, ao Museu Afro Brasil! Que se repita!!

Da esquerda para a direita: Marcelo De Salete, Neco Soares, Tiago Gualberto, Rosana Paulino, Sidnei Amaral e Alex Hornest.