domingo, 13 de janeiro de 2013

"Também quero ser sexy!"

É quase um grito de desabafo: "Também quero ser sexy!". Venho pensando na performance e no travestir como forma de expressão artística, de comunicação, de criação e de indignação.
Para alguns o projeto que comecei a desenvolver em 2012 a partir de autorretratos e que passará por retratos de anônimas e performances, pode ter algo de esquizofrênico, de um sentimento de perseguição: "ah, são preferências...". Não, não são preferências por este ou aquele fenótipo, são construções sociais pautadas em discriminações e preconceitos seculares que se impactam indelevelmente na personalidade e na autoestima e autoimagem das mulheres que não se encaixam no padrão de beleza propagado como melhor, normal, bonito.
Quando criança, me recordo de uma conversa com minha irmã, nem sei se ela se recorda, lembro que eu disse que na "outra vida, ela seria loira e eu ruiva", acreditávamos na mágica de retornarmos com o direito de sermos meninas brancas com sardas e cabelos compridos, a maneira das meninas que observávamos nas propagandas. Me lembro também de que as únicas referências de negras bonitas que tínhamos era uma modelo que havia saído em uma das excelentes propagandas da Benetton, grife italiana que desapareceu, não sei os motivos, e a capa do primeiro álbum da falecida Whitney Houston, onde ela aparecia vestida como uma pseudo-grega e com cabelos presos para trás.
Cresci numa família negra cheia de pessoas lindas que alisavam seus cabelos ou utilizavam produtos químicos para domá-los. Na qual nos identificávamos como negros, ouvia meus pais e tios conversando sobre racismo e escravidão mesmo dispondo de escassas informações históricas sobre os temas, ouvindo sambas (somos da Zona Norte de São Paulo, reduto tradicional das famílias negras paulistanas), nos reunindo aos finis de semana para os almoços com macarronada e frango assado (italianados? aculturados? transculturador?), tendo como leme das famílias as mulheres reproduzindo instintivamente e por circusntâncias históricas os matriarcados dos povos tradicionais africanos. Entretanto, entre os elogios tímidos de familiares, não existia o comentário de fortalecimento de nossa beleza, ainda que fóssemos muito bonitos, ou bonitas, nos casos meu e de minha irmã. Tinha o comentário de elogia a pele não tão negra e aos "cabelos bons" como qualidades mais bem quistas.
No ambiente escolar, nem se fala. Tinha um menininho negro chamado Evandro, que na 3º série era meu amor platônico, mas ele também me amava porque trocávamos bilhetes via a minha amiga Elis Angela. Teve o Silvio, por quem sou eternamente grata, pois foi o menininho branco que não se negou a ser meu par na festa junina, na mesma série. Me lembro de ter me apaixonado por muito mocinhos negros e todos me rejeitaram e namoravam as meninas brancas e tentavam namorar as loiras, as escassas loiras naturais das periferias, mas que materializavam o sonho branco das propagandas, da televisão. Isso será que era "preferência", assim, espontânea, ou podemos chamar de um gosto formatado por uma indústria cultural de massa? Vamos pensar. 
No Ensino Médio não foi diferente e tive um primeiro namorado negro, muito bacana, que é uma excelente pessoa com a qual aprendi muito. Hoje vejo que tive muita sorte diante de outras trajetórias de mulheres negras, porque apesar de toda a rejeição eu pude me sentir desejada num período de construção de autoimagem e autoestima crucial que é adolescência, isso serviu para atenuar o sofrimento da infancia. Sim, as crianças sofrem, a infância não é somente ternura e pureza, ela pode ser muito perversa, especialmente, se se é uma menina negra, massacrada diariamente por meninos brancos e negros e por meninas brancas. "Bulling" é um nome em inglês para algo que sempre existiu nas escolas e para os quais as professoras, brancas e negras, sempre disseram que eram "coisa de crianças". Parece que elas próprias apagam suas angústias da infância, seus medos e desejos de que algum adulto as protegessem. 
No final, vejo que os homens negros tambem são vítimas porque desejam o que a televisao lhes disse a vida inteira que é bonito e sensual, com uma grande ajuda das revistas masculinas, a mulher branca, preferencialmente, loira. Poucos são os homens negros que desenvolveram senso crítico para identificar que eles também são vítimas dessa sociedade perversa e que aprendem a se valorizar e a ver as mulheres, incluindo as suas pares, também como belas potenciais, diversas de um modelo unilateral e massificado. Na vida adulta, foi na universidade que, de repente, me tornei bonita, linda!! Homens que eu sempre desejei, me desejavam. Nem entendia como esta mágica aconteceu. Eu não era magrela, alta, pegra, beiçuda? Repentinamente, fui convidada, mais de uma vez, até para fazer fotos, para virar modelo. Eu modelo? Aos poucos fui me observando neste novo contexto, convivendo com jovens de várias classes sociais, majoritariamente da classe média à classe AAA, a educação era outra. Era um instituto de artes. Eles estudaram maracatu, MPB, simpatizavam com as religios afro-brasileiras, faziam capoeira nas horas vagas, dentre outras atividades e discussões. Quero dizer que a relação com o legado afro-brasileiro se dava na via da cultura, de que estas práticas constituiam a cultura brasileira, tão distinta, tão rica, tão exótica. Eu fazia parte desse exotismo. Como uma das poucas negras do ambiente, eu era algo autêntico,  algo raro a ser vivenciado, como se tudo, incluindo as pessoas negras e, particularmente as mulheres negras, pudessem ser uma experiência num mundo em que a experiência faz parte do ser de uma forma exacerbada. Um elogio coisificado, quase ofensivo. Entretanto, as moças brancas continuavam a ser as prediletas para se formalizar uma relação bilateral, de certa igualdade. Alguém me convidou para um jantar? Não.
Ao longo da minha vida, vi a mulher branca, loira natural ou com cabelos pintados ser valorizada, por homens e mulheres, brancos e negros, como o padrão de belo a ser copiado por todos, No mínimo para ser aproximado dele. Como me entristece as mulheres negras que não refletem sobre as suas próprias histórias e riem dos cabelos das que os usam de forma natural, fruto de um longo, doloroso e consciente processo de se aceitar como se é negra. Outro dia, no Rio de Janeiro, vi uma menina negra belíssima de uns 15 anos. Muito bonita, entretanto, com cabelos curtos e maltratados devido a processos de alisamento químico. Os cabelos estavam horríveis. Percebi pela conversa que era evangélica. Brinquei com meu namorado que criaria a Igreja do Negro Natural, faria panfletos com fotos de cabelos de mulheres negras apresentados com vários penteados e com os dizeres: "Jesus te ama do jeito que Deus te criou".
Eu já quis ser loira. Eu era uma criança.
Trabalhando em museus, escolas particulares e circualndo por um circuito no qual alguns me vêem como uma intrusa, onde entro mesmo assim, sob olhares entre surpresos e incomodados, como na noite em fui asistir uma apresentação de dança de uma ex-aluna querida no Clube Paulistano, nos Jardins, à convite de sua mãe que se tornou uma grande amiga, percebo que a riqueza no Brasil tem cor, mas ela não é só branca. Quando lecionei na primeira escola particular do meu histórico profissional, me espantei om a qualtidade de crianças brancas e loiras de olhos claros. Nunca havia visto tantos loiros juntos. Todos ricos. Entrei na propaganda publicitária! Surpresa e revolta tomaram conta de mim. Ao mesmo tempo em que sempre mantive uma atitude imparcial, demonstrando para eles, quando possível e de forma não agressiva, o quão privilegiado era o contexto no qual os mesmos vivem. Nas outras institutções o público atendido era o mesmo. Será que meus antepassados não trabalharam o suficiente? Ao contrário. Só trabalharam, mas lendo "Diploma de Brancura", do porto-riquenho Jerry Dávila, é possível conhecer os caminhos que nos levaram a esta realidade absolutamente planejada pelo governo Vargas e visível até hoje nas institutiçoes públicas e mesmo na sociedade brasileira. As instituições de educação como demarcadores e separadores sociais, escolas públicas e particulares, ricos e pobres, brancos e negros. 
A eugenia, enquanto pseudo-ciência, subsiste nas entranhas da sociedade brasileira em todas as dimensões das nossas vidas. Aqui, voltada para o binômio branquitude-riqueza, branquitude compreendida enquanto o fenótipo ariano, veremos que ela está mais presente do que imaginamos. O fato de muheres negras não se sentirem sensuais e clarearem as peles para se aproximarem do padrão branco e loiro, demonstra isso, afinal, 77% das mulheres nigerianas utilizam esse recurso, bem como atrizes e cantoras brasileiras e norte-americanas. Isso é aceitar passivamente os padrões que os meios audiovisuais e a cultura de massa nos impõem como belo.
O projeto "Também quero ser sexy!" é um grito. Não de socorro. De revolta. Contra estes modelos que não correspondem à maioria das aparências das mulheres brasileiras. Contra a riqueza branca e a pobreza negra. Contra os "Black Faces" que ridicularizam a condição da população negra no Brasil. Contra a Globo que elege Camila Pitanga como a negra mais linda do Brasil. Contra a invisilidade das mulheres negras. Contra a mutilação do corpo feminino que não corresponde aos vários exemplos platinados de beleza ovacionados pelo cinema, pelas revistas, pelos meios de comunicação e de entretenimento das massas. Contra o desamor ao diverso que é o ser humano.
Contra o desamorosidade...
Espero que o projeto passe, espero que ele se concretize, que possamos via arte discutir a criação, as estéticas possíveis, a arte como mediadora das questões da sociedade, como forma de expressão. Afinal, já perguntava Aracy Amaral "Arte pra quê?.
Acompanhe alguns imagens da performance cuja equipe foi composta por:
Crioulla Oliveira - fotógrafa
André Moncaio - video maker
Simone Soares - maquiadora
Thays Quadros - produtora

Indico todos como profissionais!

Em breve, mais informações e reflexões acerca desse projeto redigidas pelo crítico de arte, curador e Mestre em Antropologia Social Alexandre Araujo Bispo e pelo artista visual e pesquisador Marcelo De Salete.

Aqui, imagens da performance "White Face (and Blonde Hair)", realizada na Rua Oscar Freire em fins de 2012.
Ufa...





















3 comentários:

  1. Parabéns pela sua iniciativa Renata. Falta muita iniciativa e autoconsciencia do nosso povo, mas ainda chegaremos lá.

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  2. Puxa !!! Renata !!! Achei o máximo esse projeto !!! Vc foi muito criativa !!! E lendo seu texto consegui ver-me nesta história... ou seja a nossa história. Um grande abraço e olha quando abrir uma roda de conversa a respeito destes seus questionamento me convide por favor !!
    Desejo muito sucesso a você !

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  3. Grata pelos comentários! Ando meio parada na produção de arte e voltada à pesquisa, mas me aguardem! Beijos!

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